Cartas de amor

Abismo de Rosas

Américo Jacomino (à esq.), autor da valsa Abismo de Rosas

Por MARCELA ROSSETTO (Especial para o Acervo Violão Brasileiro)

O ano era 1981, eu completava 11 anos (sim, tenho 46 anos!) e meu presente de aniversário foi uma grande extravagância para os padrões familiares: um aparelho de som 3 em 1 da marca National. Para os adultos acima dos 35 anos isso significa alguma coisa. Para os abaixo dessa idade, sei que não faz o menor sentido. Então, vou explicar. Um aparelho de som 3 em 1 era um trambolho de um metro de altura, mais ou menos, que reunia rádio, toca-discos e toca-fitas. Tudo numa única peça e com duas enormes caixas de som anexas, também com cerca de um metro de altura cada uma. Hoje em dia é difícil acreditar que isso era bacana, mas, sim, isso já foi muito bacana e sonho de consumo de uma geração.

Pois aconteceu que eu ganhei dos meus pais esse presente de aniversário maravilhoso! Rádio, ok. Toca-discos, ok. Mas e fita cassete? Não tinha em casa. Até o 3 em 1 da National desembarcar com honras na sala de estar do apartamento, não tinha havido nenhuma fita cassete em casa antes. Que desperdício de tecnologia!

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Foi então que meu pai pediu a um colega de trabalho que gravasse uma fita cassete com uma seleção de músicas aleatórias, de que ele gostasse, para que finalmente a gente pudesse experimentar o aparelho de som. Tentem lembrar (para os acima de 35 anos) ou acreditar (para quem tem 20 e poucos anos de vida) que antigamente (bota antigamente nisso, né) as coisas eram mais difíceis, mais caras e estavam menos disponíveis que hoje. Não havia internet para simplesmente baixar músicas, não havia CDs piratas no camelô a R$ 1,99. Então, comprar uma fita cassete virgem e mandar gravar ou mesmo gravar do rádio era uma experiência e tanto. Comprar uma fita cassete já gravada, então, nossa, um investimento.

     

Marcela Rossetto aos 11 anos                                Marcela Rossetto

Bem, o tal colega do meu pai (acho que eu nunca soube quem era) gravou a fita pra gente. Imaginem: preencher 60 minutos de fita, 30 de cada lado da fita, a partir da sua própria seleção de discos. No verso da capa da fita cassete, preencheu os nomes de todas as músicas gravadas. Um capricho.

E aí, meu pai chegou em casa com a esperada primeira fita cassete e me deu. Finalmente eu poderia usufruir do meu 3 x 1 National por completo. Pus a fita no compartimento, apertei “play” e a primeira música que tocou foi a valsa Abismo de Rosas, de Américo Jacomino (1889-1928), imortalizada por Dilermando Reis. Imediatamente me conquistou. Só violão. Linda, delicada, cheia de paz e leveza. Ainda que só cordas, sem letra, a música me contava uma história, fazia minha imaginação viajar. Cada vez que eu ouvia, eu criava uma história diferente para aquela música. Ou não. Simplesmente dançava pela sala do apartamento com meu par imaginário, só me deixando envolver.

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A fita toda era uma sucessão de músicas elegantes e de bom gosto, mas qual aquela de que eu nunca me esqueci? Justamente a primeira: “Abismo de rosas”.  Ouvi aquela fita não sei quantas milhares de vezes. Por alguns meses, porque era a única que eu tinha. Depois, mesmo com outras opções, eu continuei ouvindo porque adorava. A primeira fita. A primeira música. Inesquecíveis.

Hoje conto essa história lá da minha infância, recuperada do baú da memória, ouvindo, claro, “Abismo de rosas”. O aparelho 3 em 1 da National virou sucata há décadas, a tecnologia é outra e o Youtube me permite ouvir repetidas vezes qualquer música com um clique. Mas a imortal “Abismo de rosas”, com sua beleza e delicadeza, continua enchendo meu coração de paz e, agora, também de nostálgica alegria.

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