Marlos-Nobre

Marlos Nobre

Nascimento

18 de Fevereiro de 1939

Naturalidade

Recife (PE)

Sua obra é das melhores para violão de um compositor não-violonista. É celebrada por virtuoses em todo o mundo

Por Gilson Antunes

A obra de Marlos Nobre é uma das melhores já compostas para violão por um compositor não-violonista: é celebrada por virtuoses em todo o mundo, e há quem as julgue como obras sucessoras da tradição villalobiana de composição, algo que por si só já significa uma enorme honra. São obras poderosas, nas quais o violão soa em total plenitude, principalmente pelo uso inteligente de cordas soltas e acordes abertos e fechados – mas sem limitar o violão a usos corriqueiros de técnicas já estabelecidas, e que são usualmente utilizadas por compositores violonistas.

Criado num ambiente em que a música folclórica e a popular eram bastante presentes, especialmente o frevo e demais ritmos carnavalescos, e filho de violonista amador, Marlos Nobre de Almeida começou a estudar piano e teoria musical precocemente, aos quatro anos. A primeira professora foi uma prima. Desde muito cedo conviveu em ambientes artísticos como o Conservatório Pernambucano de Música e o Instituto Ernani Braga. Ainda criança se familiarizou com compositores clássicos, como Bach, Beethoven e Schumann.

A música de Ernesto Nazareth e Villa-Lobos o marcou muito intensamente – e influenciou para sempre a estética e a visão composicional de Marlos Nobre: unir a música clássica com outras tendências nacionais. As ideias do escritor modernista Mário de Andrade e do padre Jaime Diniz também foram de profunda importância para o compositor pernambucano. Como também o influenciaram as obras de vanguarda de compositores como Stravinsky, Messiaen, Schoenberg e Stockhausen.

Entre 1956 e 1958 Marlos Nobre concluiu os estudos no Conservatório Pernambucano de Música e no Instituto Ernani Braga, respectivamente. Após muita reflexão, decidiu descartar todas as obras dessa fase, com exceção do Concertino no 1 Para Piano, que compôs quando tinha 19 anos.

A carreira de Marlos Nobre começou a se firmar quando recebeu em 1959 a menção honrosa no Concurso Música e Músicos do Brasil da Radio MEC, justamente com o Concertino n.1. Ainda nesse ano venceu o concurso da Sociedade Cultural Germano-Brasileira do Recife, quando entra em contato com as obras e ideias opostas de Camargo Guarnieri e Hans Joachin Koellreutter – o que o ajudou a seguir caminho próprio, pessoal.

Estudos e prêmios

Em 1964 ganhou bolsa da Fundação Rockefeller para estudar por dois anos no Instituto Torcuato di Tella, em Buenos Aires. Na capital argentina teve aulas com Aaron Copland, Luigi Dallapiccola, Olivier Messiaen, Ricardo Malipiero, Bruno Maderna e, principalmente, Alberto Ginastera – que Marlos Nobre considera o principal professor de composição que teve na vida. Ainda trabalhou composição com Alexandre Goehr e Gunter Schuller, e travou contato com Leonard Bernstein.

Essa série de contatos e aprendizados com mestres da música e as várias obras que compôs lhe renderam frutos: colecionou uma quantidade surpreendente de diplomas e troféus tanto no Brasil quanto no exterior.

Professor e regente

Com o prestígio internacional adquirido, Marlos Nobre se tornou professor visitante em universidades americanas como a de Yale, Indiana, Arizona, Oklahoma, Georgia e Texas, Nova York (EUA), e Baden Baden e Berlim (Alemanha).

Regente reconhecido internacionalmente, divulgou principalmente as música de sua autoria, conduzindou orquestras como Orchestre de la Suisse Romande, Collegium Academicum de Genebra (Suíça), Orquestra Filarmônica do Teatro Colón de Buenos Aires (Argentina) e Royal Filarmônic Orquestra (Inglaterra).

Foi diretor ou presidente de importantes instituições: Instituto Nacional de Música da Funarte, Conselho Internacional de Música da Unesco, Academia Brasileira de Música, na qual ocupa a cadeira número 1, a mesma que pertenceu a Heitor Villa-Lobos.

Fases da obra

A obra de Marlos Nobre se divide em cinco fases: a primeira (com influências de Villa-Lobos e Nazareth) vai de 1959 a 1963, com obras como o Concertino Opus 1 e o Divertimento Opus 14. A segunda, de 1963 até 1968, foi marcada pela influência e experimentalismo dos estudos na Argentina, com peças como Variações Rítmicas Opus 15 e Rhythemetron Opus 27

A terceira fase, de 1969 até 1977, marca uma confluência entre as duas primeiras, com obras como Concerto Breve Opus 33 e Homenagem a Villa-Lobos Opus 46. A quarta, de 1980 a 1989, e tem Yanomani Opus 47 e Concerto para Trompete Opus 74 entre os destaques. A última fase começa em 1989, e segue até os dias de hoje.

Marlos Nobre possui diversas obras para violão, instrumento com o qual, apesar de não tocar, possui relação bastante afetiva. Esse afeto adveio do fato de o pai que, além de ser violonista amador – tocava Adelita de Tarrega, em casa, por exemplo –, gostava de ouvir discos do Segóvia ao lado da família.

Momentos

Dessa relação intensa de afeto com o pai resultou mais de 40 músicas para violão até o momento. Nas quais se incluem peças para violão solo, duo de violões, conjunto de violões, violão e canto, violão e coro, violão e orquestra e outras formações.

A primeira obra para violão solo foi Momentos I, dedicada a Turíbio Santos e estreada pelo violonista no Queen Elizabeth Hall, em Londres, em 1974 – mesmo ano da composição. Essa peça é a primeira de uma série de quatro da primeira série desse ciclo – vieram a seguir Momentos II, em 1975, Momentos III, 1976, e Momentos IV, em 1982, todas essas também dedicadas e estreadas por Turíbio. A série Momentos foi pensada em três ciclos de quatro peças, totalizando 12 obras, que já estão compostas e em processo de revisão pelo compositor).

Villa-Lobos e Yanomani

Em 1977 compôs Homenagem a Villa-Lobos, dedicada a Dagoberto Linhares, que a estreou no Alce Tuly Hall, Lincoln Center, em Nova York – esta obra foi a peça de confronto no Concurso Internacional de Violão de Paris promovido pela ORTF, em 1979.

Nas décadas de 1980 e 1990, compôs Yanomani (para coro e violão); Sonâncias II (para flauta, violão, piano e percussão); Concerto Opus 51 (violão e orquestra); Ciclo Nordestino Opus 5 (violão solo e duo de violões), Três Danças Brasileiras Opus 57 (para duo de violões); Prólogo e Toccata Opus 65 (violão solo, gravada por Marcelo Kayath, a quem a obra é dedicada); Entrada e Tango Opus 67 (violão solo, dedicada a Roberto Aussel); Reminiscências Opus 78 (violão solo, gravada por Marcus Llerena);  Fandango Opus 69 (conjunto de violões); Concerto Opus 82 (dois violões, orquestra de cordas, tímpanos e percussão); Relembrando Opus 78a (violão solo); e Rememórias Opus 79 (violão solo).

Já neste século 21, compôs Desafio XXIV Opus 31-24 (conjunto de violões), Lamento e Toccata Opus 99 (dois violões); e concluiu o ciclo de Momentos entre 2004 e 2005, incluindo o Momentos VIII Opus 102, Momentos IX Opus 103 e Momentos X-XII Opus 104-106. Em 2011 já estava preparando a primeira Sonata para Violão, Opus 115, comissionada pela gravadora GHA, da Bélgica.

Entre outros violonistas que já gravaram composições de Marlos Nobre estão  Oscar Cáceres (Homenagem a Villa-Lobos), Joaquim Freire (Homenagem a Villa-Lobos), Sérgio Assad (Momentos I, Momentos II e Momentos III), Odair Assad (Momentos IV), Fábio Zanon (Yanomani) e Fábio Shiro Monteiro (Cantilena).

Uma coisa é certa: a obra de Marlos Nobre certamente merece muito mais atenção do que vem recebendo pelos violonistas até o momento.

Link:

www.marlosnobre.com.br

Referência bibliográfica:

SILVA, Joao Raone Tavares da Silva. Reminiscências Op.78 de Marlos Nobre: Um Estudo Técnico e Interpretativo. Dissertação de mestrado. UFBA. 2007.

Obras para violão solo:

- I Ciclo Nordestino Opus 5b (1960-1982)

- Momentos I a VII (1974 – 1984)

- Momentos VIII a XII (2004-2005)

- Prólogo e Toccata Opus 65 (1984)

- Entrada e Tango Opus 67 (1985)

- Reminiscências Opus 78 (1991)

- Relembrando Opus 78a (1993)

- Rememórias Opus 79 (1993)

- Sonata  para Violão Opus 115 (2011) OBS: Esta peça deverá ser estreada mundialmente em breve por Alvaro Pierri