Othon-Salleiro

Othon Salleiro

Nascimento

1910

Falecimento

1999

Naturalidade

Rio de Janeiro (RJ)

Por Gilson Antunes

Muito pouco se sabe a respeito de Othon Salleiro, apesar de ser reconhecido como um dos mais importantes violonistas do país. Passou toda a vida no Rio de Janeiro, onde conviveu com os grandes pioneiros na arte do instrumento. Também gravou um LP considerado histórico, no qual demonstra não apenas ser excelente violonista, mas também compositor incrível. Ele tinha entendimento raro sobre as possibilidades harmônicas e melódicas do violão, além de dominar técnicas de composição. Mas a importância do trabalho que realizou ainda não foi devidamente reabilitada.

O carioca Othon Sivaldo Vaz Salleiro foi aluno de Quincas Laranjeiras aos 16 anos e também estudou com Gustavo Ribeiro. Três anos depois já começava a dar recitais, nos quais recebia elogios e já demonstrava grande talento para ser o grande músico que se tornou.

Após receber herança do padrinho, vendeu o que possuía e se mudou para Porto Alegre, onde compôs a maior parte de suas obras musicais - o que explica parte do caráter regional de algumas composições, caso de Himarrita e Repinicado de Viola. Também compôs peças de influência nordestina, gênero musical muito em voga no Rio de Janeiro à época, fortemente marcado por João Pernambuco e Quincas Laranjeiras.

Entre os parceiros de composição, destacam-se João dos Santos (Batuque, transcrito por Nélio Rodrigues), João Pernambuco (Sonhando na Rede, transcrita por um rapaz chamado Hélcio, que era balconista da loja A Guitarra de Prata, e Eduardinho da Piedade (Choro Seresteiro, transcrito por Nélio Rodrigues).

Uma das principais influências de Othon Sallerio é Agustin Barrios, o que transparece nitidamente nas canções que compôs. Há indícios de que ele estudou com o violonista paraguaio, e aprendido o aperfeiçoamento técnico, a noção dos ritmos latino-americanos e as possibilidades harmônico-melódicas do violão. Foi também amigo e padrinho de casamento de Jacob do Bandolim, de quem frequentava sua residência.

A violonista e pesquisadora Flávio Prando classificou as composições de Othon Salleiro nos seguintes padrões: a) música urbana carioca. b) música de tradição sertaneja. c) peças de caráter da tradição Tarrega-Barrios; d) músicas com influência latino-americana.

Após a temporada no Rio de Grande do Sul, Othon Salleiro voltou ao Rio de Janeiro, onde cursou medicina, especializando-se em psiquiatria – o que o levou a trabalhar no Hospital do Engenho de Dentro durante 40 anos.

As obras de Othon Salleiro foram transcritas por vários violonistas, além dos já citados, principalmente Nicanor Teixeira, que também foi o primeiro a tocá-las de maneira sistemática.  

Gravações

Em 14 de abril de 1950, Othon Salleiro gravou 15 músicas  nos estúdios da RGE, em São Paulo. Além de composições próprias, registrou músicas de Grieg (Au Printemps), Rodriguez (Campanellas) e Yoshio Havera (Dança Gueixa).

Gravou na década de 1960 o único e elogiado LP, O Violão Brasileiro, pelo selo Brasil Musidisc. Nesse disco foram registradas nove músicas próprias, algumas das quais podem ser consideradas obras-primas absolutas do repertório para violão no Brasil, com uma variedade de ritmos que vai de valsas a batucada, passando por coco-baião e chimarrita.

O Violão Brasileiro é considerado um dos mais fundamentais discos já gravados por um violonista brasileiro. Nota curiosa: o músico não gostou do resultado e manifestou desejo de retirá-lo de circulação, o que demonstra o perfeccionismo de Salleiro em relação à arte que produzia. Há também o fato de ele ter sido praticamente obrigado a gravar o LP pelo pai, o que gerou motivo de tensão entre ambos no período de gravação.

Em 1964, Othon Salleiro realizou recital no encerramento do Congresso Panamericano de Medicina em Poços de Caldas, Minas Gerais, evento noticiado pela revista Violão e Mestres.

Ao dedicar a vida profissional à medicina, o que lhe garantia a sobrevivência financeira mensal, Othon Salleiro não se preocupou em registrar, gravar ou publicar  as músicas que compôs – e isso contribui  para o quase absoluto anonimato atual da obra que realizou.

Othon Salleiro passou por diversas gerações – incluindo as que já tinham acesso a festivais e encontros de violão e a trabalhos acadêmicos. Também foi também professor e um de seus principais alunos foi Sebastião Tapajós. Mesmo assim, o nome desse grande mestre do violão brasileiro ainda é restrito a pequeno círculo de admiradores.

Em 1998 a violonista paulista Flávia Prando fez excelente trabalho de pós-graduação a respeito da obra de Othon Salleiro, o que ajudou a elucidar e organizar melhor a vida e a obra desse grande violonista.

Bibliografia:

-PRANDO, Flávia Rejane. Othon Salleiro: Um Barrios Brasileiro? Análise da Linguagem Instrumental do Compositor-violonista. (1910-1999). Dissertação de mestrado. USP. São Paulo. 2008.

Discografia:

-SALLEIRO, Othon. O Violão Brasileiro de Othon Salleiro. Rio de Janeiro: HI-FI Music Disc. 2115, Década de 1960.

-SALLEIRO, Othon. Gravação não comercial. São Paulo: RGE, 1950.

-TEIXEIRA, Nicanor. O Violão Brasileiro de Nicanor Teixeira. 1977 (gravação da Berceuse de Othon Salleiro)

Obras de Othon Salleiro (catalogadas por Flávia Prando):

-Allegro Caprichoso

-Ansiedade

-Batuque

-Berceuse

-Caixinha de Música

-Cavaquinho em Serenata

-Chimarrita

-Confidências

-Coração de Boêmio

-Dança Árabe

-Dança Infantil

-Devaneio (Conversando com o Infinito)

-Diálogo Amoroso

-Excelsa

-Falando-lhe de Amor

-Sonata e Fantasia Andina

-Festa do Bonfim

-Harmonia e Picardia

-Luar dos Trópicos

-Miudinho Chegadinho

-Nem a Comadre Escapa – Côco Baião

-Perfume da Saudade

-Prece

-Prelúdio Carioca

-Quebra-Coco (Batuque)

-Reminiscências Cariocas

-Repinicado de Viola

-Choro Seresteiro

-Sonhando na Rede

-Sonho de Cavaquinho

-Súplicas de Amor

-Ternura

-Toada Sertaneja

-Viola da Saudade