Carlos-Garcia-Tolsa

Carlos Garcia Tolsa

Nascimento

25 de Novembro de 1858

Falecimento

23 de Dezembro de 1905

Naturalidade

Hellin, província de Albacete, Espanha

Dos primeiros espanhois a influenciar o violão brasileiro, Tolsa teve obras tocadas por Agustin Barrios, Villa-lobos e Alfredo Imenes

Por Jorge Carvalho de Mello

Grande arranjador e compositor espanhol e um dos primeiros estrangeiros a influenciar diretamente a música de violão produzida no Brasil, entre final do século 19 e início do século 20, Carlos Garcia Tolsa tocava tanto violão de 6 quanto de 11 cordas, como ilustra a foto acima. É autor de inúmeras composições, cuja importância pode ser medida pelo interesse que despertou entre os maiores compositores de violão de todos os tempos, como Agustin Barrios e Heitor Villa-Lobos.

Barrios foi um dos divulgadores da obra de Tolsa na América do Sul, a ponto de gravar duas peças do espanhol em 1914, pelos Discos Atlanta, em Buenos Aires: Divagacion Chopiniana  e Matilde. Na primeira turnê no Brasil, Barrios também apresentou diversas peças de Tolsa, como Matilde, Meditação, Pienso em Ti e Tanda de Valses.

O próprio Tolsa já se apresentou várias vezes no Brasil quando integrava a lendária Estudiantina Española Figaro, do qual fez parte o brasileiro Alfredo Imenes, que depois se tornou o principal divulgador da obra do amigo entre os pioneiros do violão brasileiro, como Quincas Laranjeiras, João Pernambuco e Ernani de Figueiredo.

Primeiros estudos

Tolsa começou a estudar violão aos 13 anos de idade. O professor era o tio, profundo conhecedor de música e que se tornou mais conhecido pela alcunha de O Cego de Hellin – que teve entre os amigos o célebre concertista Julián Arcas (1832-1882). Para prosseguir os estudos escolares, em 1872, Tolsa se mudou para Madri – período no qual se aproximou de Julián Arcas, na tentativa de que esse mestre o ajudasse a se aperfeiçoar musicalmente.  

No Diccionario de Guitarristas (1934), Domingo Prat afirma não ser possível determinar onde e por quanto tempo se deu tal aprendizado. Comenta-se, no entanto, que Carlos Tolsa teria se tornado o discípulo predileto de Arcas. Para reforçar essa possibilidade, circulou no meio musical  uma informação de que, pouco antes de morrer, Arcas teria dito: - Carlos, dejo la guitarra em tus manos.

Estudiantina

Formada em 1878, a Estudiantina Española Figaro era inicialmente composta por 22 jovens músicos – todos pertencentes a famílias conhecidas na Espanha, alguns estudantes, outros comerciários e músicos profissionais. E Carlos Garcia Tolsa participava desse grupo. Sem grandes pretensões, com o único propósito de se divertirem, os integrantes da banda marcaram apresentações em Lisboa e Paris, onde inesperadamente, alcançaram estrondoso sucesso.  

Figurava então como diretor da Estudiantina o violonista e compositor Dionisio Granados. O grupo era especializado em tocar instrumentos como violão, bandurra, violoncelo e violino, o que a caracterizava como uma orquestra de cordas.

Turnês

A Estudiantina seguiu depois para a Alemanha, onde se apresentou em diversas cidades. Depois partiu em excursão pela Áustria, Itália, Romênia, Rússia, Bélgica e Inglaterra. Em princípios de 1880, o grupo fez o primeiro giro pelas Américas: primeiramente se apresentou em Cuba e de lá seguiu para os Estados Unidos e Canadá, apresentando-se nesses países por todo esse ano. Resultado: o grupo voltou consagrado à Espanha por volta de 1881, onde passou a se apresentar por todas as regiões da Espanha.

A Estudiantina Española Figaro – já tendo Carlos Garcia Tolsa na direção, e composta por 13 músicos e um empresário – deixou a Espanha em 1883 para nova excursão pelas Américas. No roteiro, novamente Cuba, depois México, Estados Unidos, Guiana Inglesa, Guatemala, San Salvador, Costa Rica, Colômbia, Peru, Chile, Argentina, Uruguai e Brasil.

No Rio de Janeiro

Ao chegar ao Brasil, a Estudiantina compunha-se dos seguintes integrantes: Carlos Garcia Tolsa (diretor e violonista); Joaquin Rigault (empresáriorupo); Juan Ripolli (violinista e regente); Antonio Gutiez (violoncelista);  José Sancho, Miguel Lopez e Eugênio Anton (violonistas); Manuel González, José Lombardero, Alejanbro Reveses, Valentin Caro, Manuel de Mula, Enrique Olivares e Francisco Caveros (bandurras). Tais informações foram obtidas através de relato do bandurrista Manuel González, que era o porta-voz do grupo, e foi publicada no jornal gaúcho A Federação, de 11/09/1885.

O jornal O Paiz, edição de 31/05/1885, assim noticiava a viagem à corte brasileira: “Embarcou ontem em Montevidéu, no vapor Senegal, com destino à esta Côrte, onde pretendem dar uma série de concertos, a Companhia Estudantina Figaro. Os artistas que compõem a Companhia e cujas fotografias estão expostas em varias casas na rua do Ouvidor, vem associados entre sí, e só aqui escolherão o theatro em que devem trabalhar.” (sic)

Com a presença do Imperador D Pedro II, a Estudiantina Española Figaro estreou no Theatro Sant’Anna, em 08 de junho. Nesse mesmo local realizou mais 12 apresentações ao longo do mês. Finalizada essa temporada, a Estudiantina fez mais cinco concertos no Imperial Theatro São Pedro de Alcântara, até 19 de julho.

Repertório

O repertório apresentado pela Estudiantina no Brasil consistia de peças de Rossini (Guilherme Tell), Wauldteufel (Mi Sueño), Verdi (Miserere del Trovador), Mozart (Marcha Turca) e Suppé (Poeta y Aldeano), entre outras. 

Mesmo que quase todos os integrantes do grupo fossem compositores, apenas Valentin Caro e o antigo diretor Dionisio Granados tinham composições incluídas nas apresentações que a Estudiantina fazia. Mas, em reuniões informais, alguns dos membros da Estudiantina apresentavam  composições próprias. Era o caso do diretor Carlos Garcia Tolsa. O jornal Diario de Noticias, de 24 de junho de 1885, publicou: A propósito, consta-nos que o diretor da Estudiantina tem um magnífico Nocturno que, onde é tocado, levanta tempestades de entusiasmo. Para quando o guarda então?

Pelo Brasil e América do Sul

A Estudiantina chegou em São Paulo em 22 de julho de 1885. No dia seguinte, estreou no Theatro São Pedro, onde realizou mais dois concertos. Depois seguiu para Santos, já em agosto, e, de lá, para Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, onde chegou no dia 31 daquele mês. No dia 03 de setembro fez o primeiro de uma série de 12 concerto no Theatro São Pedro. Em 21 de setembro partiu para Bagé, e, daí, para Montevidéu.

A Estudiantina continuou o giro pela América do Sul, voltando ao Chile, e depois se exibindo na Venezuela, em novembro de 1886. O jornal Opinión Nacional, em edição de 03/12/1886, traz relação de integrantes da Estudiantina, na qual não se encontram os nomes de Carlos Garcia Tolsa, Manuel de Mula, José Lombardero, José Sancho e Alejandro Reneses, que foram substituídos por outros músicos.

Foram cerca de 1800 concertos realizados pelo grupo entre 1878 e1885. Pela qualidade artística dos integrantes, pela beleza dos arranjos para aquela formação e pela execução impecável das peças, a Estudiantina Española Figaro tornou-se referência mundial.

Morte no Uruguai

Após deixar a Estudantina, Tolsa radicou-se inicialmente em Montevidéu, onde se preparou para ser escrivão. Depois se mudou para Buenos Aires, em 1890, e, em seguida, para La Plata, onde foi convidado, na qualidade de escrivão público, para trabalhar como secretário de um tribunal daquela cidade, função que exerceu até o fim da vida. Carlos Garcia Tolsa nesse período não se apresentou em recitais de violão e atuou  como violonista apenas em reuniões artístico-sociais. Ele morreu em 23 de dezembro  de 1905, em Montevidéu, Uruguai.

O violonista e compositor argentino Juan Alais foi um grande amigo e admirador da arte de Tolsa, que teve poucos alunos, mas todos em destacadas posições sociais: o astrônomo Martin Gil - que foi discípulo de Alais e amigo de Segovia; a esposa do então governador uruguaio Julio Costa; e Gustavo Sosa Escalada, que foi o único professor do paraguaio Agustin Barrios, por sua vez, foi um dos divulgadores da obra de Tolsa na América do Sul, já foi dito.

O fato de Agustin Barrios tocar peças de Garcia Tolsa em apresentações no Brasil (Nocturno nº 3, no Theatro São Pedro, Porto Alegre, em 02/09/1915; Nocturno 4 no Cinema Theatro Guarany (na mesma cidade), em 10/10/1915, e Tanda de Valsas no Salão Nobre da Associação dos Empregados no Comercio, Rio de Janeiro, em 19/08/1916), indica que o número de composições de Tolsa é maior que as 17 que listamos na musicografia abaixo.

Imenes e Catulo

Outro grande divulgador da obra de Tolsa no Brasil, foi o violonista brasileiro Alfredo José de Souza Imenes, como informa Domingo Prat, no Diccionario de Guitarristas, além de afirmar que Imenes passou a integrar a Estudiantina quando o grupo esteve no Rio de janeiro em junho e julho de 1885, de onde seguiu viagem com a banda até Montevidéu. Souza Imenes absorveu o estilo e a invejável técnica violonistica de Tolsa, e aprendeu também a tocar suas composições.

Além disso, difundiu a obra do mestre espanhol entre os amigos pioneiros do violão brasileiro, como Quincas Laranjeiras, Constantino Silvério, Melchior Cortez, Domingos de Castro, Santos Coelho e Ernani de Figueiredo. E participou do famoso concerto de música popular organizado por Catullo da Paixão Cearense no Instituto Nacional de Música, em 05 de julho de 1908, causando enorme polêmica no meio artístico, o que foi amplamente noticiado pelos jornais de época.

No evento, Catulo apresentou modinhas próprias acompanhado ao violão pelos violonsitas Alfredo Imenes, Santos Coelho, Quincas Laranjeiras e José Rebello (Zé Cavaquinho). No intervalo entre a primeira e a segunda parte, esses violonistas executaram três peças ao violão: Una Lagrima, de Carlos Garcia Tolsa, Bambino, de Ernesto Nazareth, e a mazurca Edith, de autoria desconhecida.

Villa-lobos

Até o nosso maior compositor, Heitor Villa Lobos, quando jovem também tocou Tolsa. Foi num concerto beneficente organizado pelo professor Monteiro para angariar fundos para a construção da Capela de Santo Antônio em Vila Isabel, no Jardim Zoológico, em 23 de maio de 1909. Villa executou duas peças para violão solo :  Valsa 2, de autoria dele, e Noturno, de Carlos Garcia Tolsa  (O Paiz-22/05/1909-vida social-pg 3). Não sabemos com quem Villa-Lobos aprendeu tal musica.

Outros nomes importantes do violão brasileiro, como João Pernambuco, Levino Albano da Conceição e José Augusto de Freitas também incluíram várias músicas de Tolsa em apresentações públicas. Aqui reproduzimos o programa do Concerto ocorrido em 1927, no Cassino Copacabana, organizado por Quincas Laranjeiras e Melchior Cortez (Correio da Manhã, 19 de março de 1927. Correio Musical: Um Concerto de Violão em Copacabana):

1ª parte:

1-El No - valsa característica - dueto

2-Ada – Sartori - mazurka romântica - dueto

3-Una Lagrima – Sagreras - trio com o concurso do regente Domingos de Castro

4-Pagina d’Album Barrios - pelo professor Joaquim Francisco dos Santos (Quincas Laranjeiras)

5-Espalhafatoso - E. Nazareth – tango - dueto.

2ª Parte:

Apresentação da Tuna Luso Brasileira sob a direção do regente Domingos de Castro.

3ª Parte:

1-Enriquieta- Carlos Garcia Tolsa -  Habanera, estilo regional-dueto

2-Carnaval de Veneza - F. Castelli - tema e variações - dueto.

3-Al Fin, Solos - Carlos Garcia Tolsa - Sonata-trio com o concurso de Domingos de Castro.

4-Meditação - Carlos Garcia Tolsa-noturno, pelo professor Melchior Cortez.

5-Bambino - Ernesto Nazareth -tango. Dueto.

 

Musicografia de Carlos Garcia Tolsa:

1-La Prometida. Polca. Ed.C.Schoeckel.

2-Irene. Polca. Ed.C.Schoeckel.

3-Matilde.Mazurca. Ed.C.Schoeckel.

4-Pienso en Ti. Valsa. Ed.E. Halitzki.

5-Entre Dos Luces. Habanera para dois violões. Ed.E. Halitzki.

6-La visita. Valsa.

7-Enriqueta.Habanera para dois violões. Ed. Romero y Fernandez

8-Mercedes. Gavota. Ed. Francisco Nuñez.

9-Estela. Mazurca. Ed. Francisco Nuñez.

10-Meditacion.Nocturno. Ed.C.Schoeckel

11-Una Esperanza.Valsa. Ed.C.Schoeckel

12- Al Fin, Solos. Sonata.Ed. E. Halitky.

13-Travesuras. Polca. Ed. E. Halitky.

14-Una Lagrima.Mazurca. Ed. E. Halitky.

15-Lejos de Ti. Valsa. Ed. E. Halitky.

16-La Simpática. Mazurca. Ed. E. Halitky.

17-Maruja. Habanera. Ed. E. Halitky.

OBS: Estas composições foram editadas e revistas em 2004 pela Guitar Heritage, no álbum intitulado Carlos Garcia Tolsa - The Collected Works for Guitar. Muitas composições de Tolsa foram editadas em Buenos Aires.

Referências bibliográficas:

Sobre a Estudantina:

www.academia.edu/crónica_y_relato_de_la_presencia_de_la_estudiantina_española_figaro_en_venezuela

http://www.musicadechile.com/home/main.aspx?m=2&id=101&action=leer